28 fevereiro 2009

Místico



(por Vinícius de Moraes)


O ar está cheio de murmúrios misteriosos
E na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização…
Tudo está cheio de ruídos sonolentos
Que vêm do céu, que vêm do chão
E que esmagam o infinito do meu desespero.

Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobre
Eu sinto a luz desesperadamente
Bater no fosco da bruma que a suspende.
As grandes nuvens brancas e paradas –
Suspensas e paradas
Como aves solícitas de luz –
Ritmam interiormente o movimento da luz:
Dão ao lago do céu
A beleza plácida dos grandes blocos de gelo.

No olhar aberto que eu ponho nas coisas do alto
Há todo um amor à divindade.
No coração aberto que eu tenho para as coisas do alto
Há todo um amor ao mundo.
No espírito que eu tenho embebido das coisas do alto
Há toda uma compreensão.

Almas que povoais o caminho de luz
Que, longas, passeais nas noites lindas
Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz
O que buscais, almas irmãs da minha?
Por que vos arrastais dentro da noite murmurosa
Com os vossos braços longos em atitude de êxtase?
Vedes alguma coisa
Que esta luz que me ofusca esconde à minha visão?
Sentis alguma coisa
Que eu não sinta talvez?
Por que as vossas mãos de nuvem e névoa
Se espalmam na suprema adoração?
É o castigo, talvez?

Eu já de há muito tempo vos espio
Na vossa estranha caminhada.
Como quisera estar entre o vosso cortejo
Para viver entre vós a minha vida humana...
Talvez, unido a vós, solto por entre vós
Eu pudesse quebrar os grilhões que vos prendem...

Sou bem melhor que vós, almas acorrentadas
Porque eu também estou acorrentado
E nem vos passa, talvez, a idéia do auxílio.
Eu estou acorrentado à noite murmurosa
E não me libertais...
Sou bem melhor que vós, almas cheias de humildade.
Solta ao mundo, a minha alma jamais irá viver convosco.

Eu sei que ela já tem o seu lugar
Bem junto ao trono da divindade
Para a verdadeira adoração.

Tem o lugar dos escolhidos
Dos que sofreram, dos que viveram e dos que compreenderam.



Rio de Janeiro, 1933
in O caminho para a distância
in Poesia completa e prosa: "O sentimento do sublime"

Sobre Macaquices, Jaulas & Florestas




Macaco, curioso que é,

é bicho de se notar
pela inteligência que tem,
pela graça que faz,

pela destreza dos movimentos,

pelos olhares curiosos que tem
e
também por aqueles que desperta...


Um dia, um macaco, curioso que é,

estava mexendo nas folhagens que se via cercado,

olhando para os lados, depois de haver acordado,

e perceber que não possuia mais

um horizonte ilimitado que outrora tinha.


Balançando-se de galho em galho,
chegou até onde podia, e,
pra sua surpresa,
notou barras de ferro,
onde outrora não havia,

e se viu numa mistura de medo e raiva,

pois por aquilo ele não pedira, mas,

independente disso, era assim que se encontrava.


Depois, curioso que é,
resolveu circular pelo lugar,
e
diferente das matas onde se via livre,
lá encontrou alimento posto no lugar,
água para beber quando sede tivesse,

e assim, a falta da liberdade incomodou menos...

Pelo menos por um tempo...

Tempo esse que se viu um símio gordo e estranho,

bem diferente daquele que vagava livre pela mata...


E foi aí que a Liberdade brilhou novamente
nos olhos daquele ser que era inteligente,

apesar da falta do polegar opositor que lhe faltava...


Numa boa oportunidade,
conseguiu escapar
da jaula que o prendia,
sentindo um gosto de vida à boca,

gosta esse que a tempos não sentia...


Sorrisos depois, estava bem próximo à uma floresta,

não a sua de origem, mas ao menos era uma floresta, ora...

E não é que, neste caminho, cruzou novamente por uma jaula?

E não é que passou em sua mente a lembrança de não precisar
ter
nem trabalho de buscar alimento ou segurança pra passar a noite?


Apenas no caminho para a floresta, para uma nova Liberdade,

aquele macaco já não era o mesmo...
Já estava muito diferente

daquele símio desconsolado e gordo da jaula de outrora...

Mas e agora?

Um desconhecida floresta em Liberdade ou
uma desconhecida jaula preso por vontade?


Macaco, curioso que é,

é bicho de se notar

pela inteligência que tem,

pela graça que faz,

pela destreza dos movimentos,
pelos olhares curiosos que tem
e
também por aqueles que desperta...




(por Sandro Câmara)

27 fevereiro 2009

AS INDAGAÇÕES



A poesia não
se entrega

a quem a define.



A alma é

essa coisa

que nos pergunta

se a alma existe.




Mas o que quer dizer este poema?
- perguntou-me alarmada a boa senhora.


E o que quer dizer uma nuvem?
- respondi triunfante.


Uma nuvem
- disse ela -
umas vezes quer dizer chuva,
outras vezes bom tempo...



Eu passarinho!


(Mário Quintana - recortes)