20 outubro 2009

No meio do caminho, a FreePorto



Encontro literário às avessas

Publicada no dia 13 de outubro, na Folha de Pernambuco.

Por Mônica Melo

Escritores tresloucados, oficinas literárias às avessas, teatro, música, muita farra e, claro, polêmica. É com essa bagagem que aporta na capital pernambucana, entre os dias 6 e 8 de novembro, a FreePorto, Festa Literária do Recife. Iniciativa do grupo Urros Masculinos, o irreverente evento, a começar pelo nome (uma referência à Fliporto), irá se instalar no Bairro do Recife

De acordo com o contista Artur Rogério, um dos integrantes do Urros, a realização da FreePorto surgiu do desejo do grupo em publicizar, de forma imediata e pujante, o que ele, o escritor Bruno Piffardini e o poeta Wellington de Melo pensam sobre toda essa multiplicação de festas literárias, bienais e “espasmos flipianos”, considerados por Artur parte relevante no processo de promoção de velhos e novos autores. “Apesar da aparente ironia em ‘espasmos flipianos’, não vemos essas festas como algo essencialmente negativo. Particularmente, me sinto privilegiado de viver e trabalhar neste instante histórico. São importantíssimas na mesma medida em que são ridículas todas essas festas. E são interessantes por isso”, comenta.

Superadas as dificuldades financeiras, a primeira edição do evento contará com uma programação “sarapatel”, a partir da participação de escritores inusitados e realização de oficinas no mínimo curiosas. O escritor Pedro Américo de Farias, por exemplo, irá ministrar a off-cina “Como amarrar o cadarço em pé”. Já a “Off-cina de caipirinha” será encabeçada pelo escritor Valmir Jordão. “O diferencial da FreePorto é a nossa produção e revisão da ideia do que seja uma festa literária, com atenção voltada à festa mesmo e não a debates, muitas vezes lindíssimos, mas que talvez coubessem mais no auditório do Centro de Artes e Comunicação da UFPE”, acredita.

O escritor Marcelino Freire, um dos convidados da festa, reverencia a proposta diferenciada da FreePorto. “Os meninos do Urros vêm para balançar a cena, dar gás, fugir do “oficioso”, do “naftaloso”, da cultura chapa-branca. A Free é um evento que vem para fazer história em Pernambuco. Chega de caviar e lagosta, queremos literatura da boa e discussão calorosa. Enquanto os outros fazem festa com um milhão, os meninos fazem a FreePorto com humilhação”, diz o escritor, com a propriedade de quem organiza, há quatro anos, a Balada Literária, em São Paulo. Para ele, o vigor, o frescor e a irreverência do evento consistem no grande mérito da FreePorto. “Penso que o que empaca, em boa parte, a literatura feita em Pernambuco é o excesso de gravata, de solenidade, de José Sarney, Glória Maria, de gente que vem falar de literatura sem nenhuma graça, sem pulsação”, defende Marcelino.

Convidados

A abertura da FreePorto – Festa Literária do Recife no dia 6 de novembro contará com a presença de Marcelino Freire, Claudio Willer, Ron Whiteread, Lucila Nogueira, Raimundo Carrero, entre outros. Para o sábado, está programada a participação de Santiago Nazarian, Ivana Arruda Leite, Jomard Muniz de Brito e Valmir Jordão. A poetisa Cida Pedrosa, Raimundo Moraes, Pedro Américo de Farias, Cristhiano Aguiar, Samuca Santos e Biagio figuram entre os convidados da festa.

Urros

O grupo literário Urros surgiu em 2008 na forma de brincadeira com as meninas do Vozes Femininas: Silvana Menezes, Mariane Bigio, Susana Moraes e Cida Pedrosa. “Como um ‘contraponto’ à proposta das participantes do Vozes, criamos o nosso grupo de ‘escritores machos’”, explica o contista Artur Rogério, que atua no grupo junto ao escritor Bruno Piffardini e o poeta Wellington de Melo.

Conforme Artur, a ideia original consistia em promover apresentações literárias. A empolgação foi tanta que eles passaram a se dedicar à produção de eventos, como o Primeiro Leilão de manuscritos e originais de escritores em Pernambuco, além de uma flashmob destinada a homenagear o poeta Manuel Bandeira. A segunda flashmob homenageou Carlos Drummond de Andrade durante a sétima edição da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, como prévia da FreePorto.


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05 abril 2009

HOPE or R.I.P. (ou A Pedra Fundamental)


(por Sandro Câmara)

Tem dias que a gente se sente pedra.
Pesada por dentro e intransponível por fora.

Mas, breve, a vida em nós se faz presente,
relembrando-nos a natureza própria, que é nossa,
recheada de sentimentos e fragilidades,
que nos tornam bichos novamente,

racional e evoluído por mero antropocentrismo idiota.

E, neste centro, onde estamos por auto-sugestão,
é que a tempestade da nossa caótica evolução
não nos deixa esquecer que toda esta velocidade,
esta que reclamamos ser da terra e não nossa,
é o ritmo (igualmente auto-imposto) da transformação
que a humanidade mais necessita mas, paradoxalmente,
mais corre, justamente por ser o cerne da questão:
para que correr tanto para uma linha de chegada
que aparenta, concretamente, ser a nossa extinção?

O que qualquer lucro ou percentual significará se,
simplesmente, não estivermos mais aqui para aproveitar?

Como as espécies que nos sucederão
terão condições de nos observar?

Como uma espécie fisiologicamente bem evoluída
(com direito a polegar opositor e um belo
telencéfalo altamente desenvolvido),
com um potencial de criação e execução maravilhoso,
foi capaz de antecipar sua destruição
por pura ignorância, por um real apego e
um inevitável desejo de não se importar
com o equilíbrio do planeta quando
tinha total condição de fazê-lo?

29 março 2009

(pintura de Gustav Klimt)

a verdade de outra pessoa não está no que ela te revela, mas naquilo que não pode revelar-te. portanto, se quiseres compreendê-la, não escute o que ela diz, mas antes, o que ela não diz.
(kahlil gibran)

permite descobrir o outro, como forma de descobrir a si mesmo: o tempo dos descobrimentos ainda não terminou. continuemos descobrindo a nós mesmos.
(josé saramago)

(pintura de Gustav Klimt)

09 março 2009

Uma música que seja


... como os mais belos harmônicos da natureza. Uma música que seja como o som do vento na cordoalha dos navios, aumentando gradativamente de tom até atingir aquele em que se cria uma reta ascendente para o infinito. Uma música que comece sem começo e termine sem fim. Uma música que seja como o som do vento numa enorme harpa plantada no deserto. Uma música que seja como a nota lancinante deixada no ar por um pássaro que morre. Uma música que seja como o som dos altos ramos das grandes árvores vergastadas pelos temporais. Uma música que seja como o ponto de reunião de muitas vozes em busca de uma harmonia nova. Uma música que seja como o vôo de uma gaivota numa aurora de novos sons...

in "Para viver um grande amor (crônicas e poemas)"
in "Poesia completa e prosa: "A lua de Montevidéu" "

05 março 2009

Budismo moderno

por Augusto dos Anjos


Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

28 fevereiro 2009

Místico



(por Vinícius de Moraes)


O ar está cheio de murmúrios misteriosos
E na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização…
Tudo está cheio de ruídos sonolentos
Que vêm do céu, que vêm do chão
E que esmagam o infinito do meu desespero.

Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobre
Eu sinto a luz desesperadamente
Bater no fosco da bruma que a suspende.
As grandes nuvens brancas e paradas –
Suspensas e paradas
Como aves solícitas de luz –
Ritmam interiormente o movimento da luz:
Dão ao lago do céu
A beleza plácida dos grandes blocos de gelo.

No olhar aberto que eu ponho nas coisas do alto
Há todo um amor à divindade.
No coração aberto que eu tenho para as coisas do alto
Há todo um amor ao mundo.
No espírito que eu tenho embebido das coisas do alto
Há toda uma compreensão.

Almas que povoais o caminho de luz
Que, longas, passeais nas noites lindas
Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz
O que buscais, almas irmãs da minha?
Por que vos arrastais dentro da noite murmurosa
Com os vossos braços longos em atitude de êxtase?
Vedes alguma coisa
Que esta luz que me ofusca esconde à minha visão?
Sentis alguma coisa
Que eu não sinta talvez?
Por que as vossas mãos de nuvem e névoa
Se espalmam na suprema adoração?
É o castigo, talvez?

Eu já de há muito tempo vos espio
Na vossa estranha caminhada.
Como quisera estar entre o vosso cortejo
Para viver entre vós a minha vida humana...
Talvez, unido a vós, solto por entre vós
Eu pudesse quebrar os grilhões que vos prendem...

Sou bem melhor que vós, almas acorrentadas
Porque eu também estou acorrentado
E nem vos passa, talvez, a idéia do auxílio.
Eu estou acorrentado à noite murmurosa
E não me libertais...
Sou bem melhor que vós, almas cheias de humildade.
Solta ao mundo, a minha alma jamais irá viver convosco.

Eu sei que ela já tem o seu lugar
Bem junto ao trono da divindade
Para a verdadeira adoração.

Tem o lugar dos escolhidos
Dos que sofreram, dos que viveram e dos que compreenderam.



Rio de Janeiro, 1933
in O caminho para a distância
in Poesia completa e prosa: "O sentimento do sublime"

Sobre Macaquices, Jaulas & Florestas




Macaco, curioso que é,

é bicho de se notar
pela inteligência que tem,
pela graça que faz,

pela destreza dos movimentos,

pelos olhares curiosos que tem
e
também por aqueles que desperta...


Um dia, um macaco, curioso que é,

estava mexendo nas folhagens que se via cercado,

olhando para os lados, depois de haver acordado,

e perceber que não possuia mais

um horizonte ilimitado que outrora tinha.


Balançando-se de galho em galho,
chegou até onde podia, e,
pra sua surpresa,
notou barras de ferro,
onde outrora não havia,

e se viu numa mistura de medo e raiva,

pois por aquilo ele não pedira, mas,

independente disso, era assim que se encontrava.


Depois, curioso que é,
resolveu circular pelo lugar,
e
diferente das matas onde se via livre,
lá encontrou alimento posto no lugar,
água para beber quando sede tivesse,

e assim, a falta da liberdade incomodou menos...

Pelo menos por um tempo...

Tempo esse que se viu um símio gordo e estranho,

bem diferente daquele que vagava livre pela mata...


E foi aí que a Liberdade brilhou novamente
nos olhos daquele ser que era inteligente,

apesar da falta do polegar opositor que lhe faltava...


Numa boa oportunidade,
conseguiu escapar
da jaula que o prendia,
sentindo um gosto de vida à boca,

gosta esse que a tempos não sentia...


Sorrisos depois, estava bem próximo à uma floresta,

não a sua de origem, mas ao menos era uma floresta, ora...

E não é que, neste caminho, cruzou novamente por uma jaula?

E não é que passou em sua mente a lembrança de não precisar
ter
nem trabalho de buscar alimento ou segurança pra passar a noite?


Apenas no caminho para a floresta, para uma nova Liberdade,

aquele macaco já não era o mesmo...
Já estava muito diferente

daquele símio desconsolado e gordo da jaula de outrora...

Mas e agora?

Um desconhecida floresta em Liberdade ou
uma desconhecida jaula preso por vontade?


Macaco, curioso que é,

é bicho de se notar

pela inteligência que tem,

pela graça que faz,

pela destreza dos movimentos,
pelos olhares curiosos que tem
e
também por aqueles que desperta...




(por Sandro Câmara)

27 fevereiro 2009

AS INDAGAÇÕES



A poesia não
se entrega

a quem a define.



A alma é

essa coisa

que nos pergunta

se a alma existe.




Mas o que quer dizer este poema?
- perguntou-me alarmada a boa senhora.


E o que quer dizer uma nuvem?
- respondi triunfante.


Uma nuvem
- disse ela -
umas vezes quer dizer chuva,
outras vezes bom tempo...



Eu passarinho!


(Mário Quintana - recortes)